Depreciativo NÃO é depressivo!

Não tenho paciência para longas depressões
Se estiver deprimido, vá beber sozinho!
Se estiver depreciativo...

Vem beber comigo


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Maria Flor



A alegria de um olhar não se mede com o sorriso,
Como um mergulho consigo, num mar ainda mais infinito,
Enxergar como a vida sozinha apaga seus tortos rabiscos.

Quando o amor então se esvai,
Minha imagem vai turvando,
Ninguém mais me conhece.
Quando mal sabe-se haver alma
Leveza, esperança, beleza.
Brota em frente, risco de calma.

Brota amor, após todo secar,
depois da desesperança
ainda pode germinar...
Ah,  o Amor pode o que quiser
somente em vaso de gente,
somente em vaso de mulher.


Em terremoto de amor partido
em coração empedernido
germina uma flor sadia.
Nasce após um tsunami
Nasce a minha calmaria
Nasce a linda flor, Maria.









quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ABC do ócio....

Assim assumo as asneiras,
assinaturas astutas, atitudes auspiciosas
Amores amargos, amizades aéreas
Antigos atos, aterrorizadores...

Basicamente besta, basta o bom
boom de bondades, brotando
Bebendo a boca do beijo
Beliscando a bunda do bebê...

Colocações calculadas,
corretamente colocas em coloridas composições
Como essa, colhida cuidadosamente
Com cautela e calor, causando coisas...

Diversões, desapegos e diálogos
Divergentes das dores,
doenças, dessabores e desgraças,
Descabidas de dias decorridos dantes...

Evolução essencial, esperada
engravidada, embuchada
escolhida com esmero
Erguendo esperanças....

Floreadas facilmente, fala em felicidade
força, fraqueza e falsidade
Feito ferro, forjado faca.
Fere, finca, finda!!!                            Flor

Gloriosa! garbosa!
Gordinha? gostosa?
Grato gasto meus gestos
girando a guria...

Honestamente?
há horas, e hoje,
houveram  hábitos
horrorosos e honrados...

Invariavelmente inverto,
invento e instalo
Intenções e isenções
Intrigas e irrigações...

Jurando juras jeitosas,
jamais judiando,
Jeito juvenil, jeans
Justamente pós julho

Lave levemente as lentes
levante-se, lute
leia letras luzentes,
ludicidades literárias...

Maria, maria...
Mais, mulher ?
mamãe!!!!!!!!!!!!!!!
Maria... Maria

um dom, uma certa Magia....

Carência

Um cão atropelado, a rua engarrafada, pessoas sorrindo em fotografias digitais, cantadas pré-fabricadas, piadas repetidas, olhos cheio d'água, canções de amor.

Tudo isso funciona
o querer é a seta da atenção
a seta da atenção é o que se quer

Expor corrupção, poupar a natureza, guardar o lixo, sorrir ao cumprimento, tocar um instrumento, vestir-se de branco, ouvir atento, abrir as portas, não dormir ao relento

Tudo isso funciona
querendo a seta da atenção
sendo a seta do que se quer

Querendo setas
Temendo setas
Atenção!!!!!!!

Carpinteiro de mim.

Minha aparência está péssima,
Mas me esqueço de como são tais dores
e invariavelmente volto ao espelho.
raspo mais um pouco da madeira de mim
acho que raspei demais, e árvore demora muito pra crescer de novo
antes disso eu rasparei novamente, achando que posso consertar,
como coçar uma ferida sempre antes dela cicatrizar.


Tenho tido um sono ruim ultimamente,
conturbado e repetido sempre
acordo ainda mais cansado.
Não consigo mais descansar, durmo acordado
acordo sonolento
esse é o sonho, fatalmente realizado.

Roendo as unhas mordi o dedo.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

Querer Amar

Querer amar....

É compor ao dirigir,
e esquecer quando chegar,
sem gravador,
sem mãos para anotar.

Querer amar...

É ter cigarros na carteira
bem depois de almoçar
com um isqueiro sem gás,
e uma caixa sem palitos para riscar.

Querer amar...

É um parque de diversões
só para você
só com você.

Querer amar...

não é nada,
é só querer.
é não amar...

sábado, 14 de maio de 2011

Corredor da Vitória

    Ele chamou o elevador, mas logo depois de apertar o botão se arrependeu e escolheu as escadas. Começou sua descida rumo à liberdade momentânea que tanto precisava para talvez se encontrar, ou simplesmente para dormir. Caiu na rua em baixo de uma leve chuva e se sentiu orgulhoso por não ter se importado com a reação do porteiro. Escolheu o lado esquerdo e foi-se, variando entre o asfalto e a calçada, sentindo os pingos convergirem todos em sua direção, esperando apenas a próxima esquina que viria.

    Seu peito cortava as gotas que caiam, na verdade quando saiu do Corredor da Vitória ainda estava quase seco, protegido pelas árvores, mas entrou de fato em campo aberto ao chegar no Campo Grande, entrou pelas taciturnas ruas do Canela sem pensar se dobraria ou não a esquina que viesse, sem perceber se estava passando duas vezes no mesmo lugar, sem se preocupar com nada. Apesar de conhecer bem aqueles prédios tudo era turvo à sua volta, os sons dos raros carros que transitavam não eram tão altos como os de seus passos a espalhar a água do chão. Conseguiu realmente chegar à meditação ao misturar suor e chuva em seu corpo e apagar tudo da sua mente, não fazia a menor noção de quanto tempo já estava a correr, nem a que velocidade, percebeu que aquilo era o não-pensar de que tanto falavam os orientais, e como eles estavam certos, aquilo sim era viver! Mas ao se conscientizar disso desfez-se do desfeito e se tocou que voltou a pensar.

   Olhou à sua volta para saber onde estava e não reconheceu, era uma longa ladeira, talvez da Graça, talvez da Federação, tentou refazer a rota em sua mente, mas foi inútil, então simplesmente escolheu subir a ladeira, voltar de onde vinha e caminhar, agora se sentiu realmente cansado. Continuou sem reconhecer nada, não sabia realmente quanto tempo levara a correr e aquilo começou a te preocupar, o medo voltou a correr mais forte em seu corpo do que ele pelas ruas, era grande o silêncio, a escuridão e a chuva, e desses três fenômenos assustadores começou a pensar que o último poderia estar a seu favor, era reduzida a chance de outra pessoa também estar vagando como ele com tanta água caindo. Procurou fazer silêncio para escutar algum movimento e se assustou porque só percebeu um carro que vinha quando o mesmo já estava passando por ele. Acho que não sou adaptado para essa vida de riscos, pensava ele enquanto começava a lembrar dos motivos de seu rompante noctívago, talvez se adaptar aos riscos seja um deles, encarar seus medos também, e é claro, ficar veloz para quando a morte chegar.

   Sorriu ao pensar nisso tudo, na sua dúvida sobre os castigos divinos e da funcionalidade de um confessionário, mas o mais engraçado era imaginar a morte vindo em seu capuz preto atrás de um velocista, na verdade o objetivo não era fujir em definitivo da morte, mas correr por tempo suficiente para pedir o perdão de Deus, correr do diabo e abraçar o lado bom da força.

   Voltou de seus pensamentos quando ouviu o som de um pé em uma poça logo atrás dele, e ao virar-se perdeu todo o sangue quente de seu corpo, era ela! A Morte!

   A Morte, em sua capa preta botas de borracha, cigarro em uma mão e um gancho na outra. Vinha a passos largos em sua direção e estava perto demais para um Creio em Deus Pai ou uma Salve Rainha, andando de costas só conseguiu proferir um: -Puta merda! Minha Nossa Senhora! quando tropeçou e caiu batendo com a cabeça no meio fio.

  Acordou de repente, olhando o céu cheio de estrelas, limpo como num dia de inverno do sertão. Estava deitado de costas em cima de uma pedra, em alguma floresta, não fazia idéia de quanto tempo esteve desacordado, minutos, horas, dias! 

  A sua volta estavam seis pessoas, todas encapuzadas de forma que identificar os rostos era impossível, além do mais estava muito escuro, não havia lua no céu e além das estrelas havia uma fraca fonte de luz e calor em baixo da pedra em que estava, que Vicente imaginou ser algum tipo de fogareiro. A consciência daquilo tudo tomou seu corpo de pavor, um pavor absurdo, adequado para a situação. Os encapuzados estavam de cabeça baixa, em silêncio, vestidos como a morte e segurando facas em suas mãos. Vicente não conseguia mexer seu corpo, somente o pescoço rodando e se aterrorizando, começou a pensar se estava morto ou se seria morto, quando o primeiro encapuzado se aproximou sussurrando algo indecifrável, se abaixou ao seu lado e depois de alguns segundos se levantou com a faca em brasa.

  Vicente tentou gritar inutilmente, tentou se debater com o mesmo insucesso,  só podia sentir o ardor da lâmina em brasa rasgando a pele nas costas de seu pé, a agonia não lhe permitia olhar, não podia gritar nem perguntar nada, era como se estivesse em algum tipo de sedação que o mantinha consciente e sensível a dor, logo que o primeiro terminou veio o segundo, e seguindo o mesmo ritual abriu rágades em seu outro pé, depois vieram as costas das mãos, quando faltavam ainda mais dois desgraçados sádicos anjos do apocalipse para ferrá-lo ele percebeu que estavam escrevendo em sua pele, algo também incompreensível, talvez pelo inchaço e sangue torrado no local. O quinto elemento veio por cima de sua cabeça e segurando sua cabeça pelos dois lados, fechando suas orelhas o obrigou a ver o sexo que sua frente, com uma enorme lâmina, quase um machado, um instrumento que os açougueiros usam para cortar pedaços mas firmes de carne, pedaços com ossos pelo meio, ela abriu suas pernas e olhou fixamente para o seu órgão genital. Vicente logo percebeu que nada seria escrito ali daquela vez, e mesmo sem movimentos sentiu o gosto salgado da enxurrada de lágrimas que corriam pelo seu rosto, pensou novamente na virgindade  de Camila, no sexo descompromissado com tantas mulheres e meninas em sua vida, mas pensou principalmente no "puta merda" expressado antes de sua morte, aquilo com certeza era o inferno, ou pior, o princípio do inferno.

   Começou só então a pensar nas orações que sabia, fazendo promessas pela oportunidade de refazer sua vida, de forma mais digna e honrada, fez votos de todos os tipos, desde pobreza, celibato, agnosticismo, etc. Mas nada disso pôde evitar a descida da lâmina, nem ele de olhar, já que seus olhos foram forçadamente pelo indivíduo que segurava sua cabeça, percebeu pelos longos cabelos negros que seu algoz era uma mulher, só podia ser mesmo, uma punição claramente à devassidão em que vivera. 

   Mas como eu ia dizendo, a lâmina desceu, desceu diretamente no membro cobiçado por algumas mulheres, desdenhado por outras, mas sempre tão esmerado pelo proprietário. Foi então no momento do choque que ele sentiu contrair todas suas vísceras, dobrar os joelhos e soltar um alto grito de pavor, e despertou novamente, outra vez ao lado de uma morte encapuzada, que te segurava nos braços e deu um pulo pra trás parecendo assustada com o grito. 

  "Me Deus, será que passarei a eternidade acordando e acordando em rituais satânicos de flagelação física e moral de minha pessoa?" era o que ele pensava o aperceber que estava recostado na calçada da rua, na mesma noite chuvosa em que correra, no mesmo meio-fio em que caíra, ao lado da mesma morte perseguidora, que era na verdade um homem negro, em sua capa de chuva, guarda-chuva e uma mão e a outra vazia por ter jogado o cigarro fora para socorrer um estranho desmaiado na rua.

  O jovem conseguiu se levantar sozinho, percebeu que estava com seu único pertence, a chave de casa, falou para o homem que estava bem, só havia se assustado, o homem lhe falou que fazia a segurança do local, e aconselhou-o a se retirar, era tarde e perigoso ficar àquele horário na rua. 

  Vicente ainda meio tonto terminou de subir a ladeira e percebeu estar na Graça, procurou o caminho de volta pelo viaduto sobre o Vale do Canela, seu caminho era longo, sua cabeça atordoada, suas roupas encharcadas, suas pernas cansadas, mas o que mais doía eram as costas, das mãos e dos pés...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Depois dos Bares

    Ainda naquela noite ele caminhou até o carro observando a cidade vazia com poças por todo chão, sentiu uma vontade enorme de caminhar por horas pela rua, na verdade a praia estava perto e poderia até ver o sol nascer, se imaginou tomando um banho de mar naquela manhã fria, pensou nas idéias que poderia ter, ou na limpeza que talvez ocorresse em sua mente, seria uma cena poética certamente, mas ao chegar junto ao carro acovardou-se e desistiu.
    O guardador não estava mais por lá, como esperado pelo horário, mas ele pensou na possibilidade do mesmo estar escondido e entrou rápido no carro tentando evitar o corriqueito conflito psicológico por conta de cinco reais. Enquanto arrancava apressado lamentou por frustrar seus planos da caminhada solitária, na verdade tinha mesmo muito medo de andar sozinho pela madrugada naquela cidade, e sabia que a beleza dessa caminhada seria justamente a coragem e a possibilidade dos riscos.
    Decepcionado vagou com o carro por alguns minutos, assim era mais seguro, menos interessante, porém bem mais seguro. No momento seguinte achou muito sem sentido ficar dando voltas na cidade vazia, mesmo porque ninguém veria seu culto à solidão e aquilo ainda era importante para ele, por isso mesmo continuava sentindo-se um homem vazio tentando encontrar alguma profundidade em seu eu, alguma coisa de interessante além de sua enorme beleza, algum contraponto a sua covardia.
    Decidiu voltar para a casa de seus pais, acendeu logo um cigarro, pois eles não sabiam que seu filho fumava.
    Cantarolou algumas músicas e ficou feliz por esquecer a misteriosa fugitiva, o que havia de errado em seu nome? De qualquer forma ficou feliz simplesmente por não ter ficado nas ruas cultuando a tristeza da dúvida e da rejeição, pensou ter achado a profundidade na simplicidade de seus sentimentos.

    Entrando em casa vieram frases que rabiscou num papel:

       "Os homens andam procurando respostas inúteis, para perguntas fúteis.
        Os homens vivem se escondendo em sorrisos 
        Os homens vivem querendo corrigir erros que vão cometer
        Os homens vivem tristes esperando que algo venha acontecer,
        Os homens pulam alegres por um minuto de poder esquecer
        Homens apanham por não querer,
        Homens são obrigados a sorrir, mesmo sem beber"

    Abriu uma garrafa de vinho e se sentou para trabalhar nas palavras, continuava acreditando que deveria ser escritor, alguma coisa viria, aquilo poderia ser grande! Entretanto nada mais apareceu em sua cabeça e foi dormir mais uma vez triste, porém bêbado.

    Acordou com a ressaca e a culpa de não ter nada de urgente pra fazer. Carregou essa culpa durante todo um dia inútil, pensando na maré de azar que vinha te acompanhando, tentando entender o motivo daquela falta de ânimo, na sucessão de fracassos e rejeições. Seria ele, Vicente, um total incompetente em todas as áreas de sua vida? Dormiu outra noite sem respostas, sem perspectivas, sem estudar, sem escrever, sem trabalhar, sem se apaixonar, sem sorrir, sem chorar e sem trocar grandes palavras com ninguém.

    Acordou durante a noite com um pedaço de vida. Chorou por se sentir cruel, pensou na virgindade de Camila que ele findou no final do ano passado, enchendo ela de promessas e da visão de seu grande e belo corpo forte. Pensou no sofrimento de Laura que se apaixonara por ele, mas fora desprezada, tida como ignorante e fútil por ele, que sabia distinguir as composições de Mozart das de Beethoven, que já leu um livro de Tolstoi e dois de Jorge Amado, enquanto ela assistia o big brother.

   Estaria sendo castigado por Deus? Ele cobrava por todas as pessoas que o Vicente subestimara nos últimos cinco anos? Estaria o Vicente destinado ao sofrimento em vida? e depois dela?

    Na manhã seguinte acordou mudado, desprezando os pensamentos confusos e inseguros, determinado a regar seu jardim, se encher de cultura e ser realmente uma pessoa interessante. Deixou de culpar Deus pelas coisas, afinal de contas intelectual e crente eram palavras antagônicas em seu limitado ponto de vista. Trocou de roupa, alimentou os peixes e foi para rua, parou numa livraria, folheou os autores recomendados por conhecidos que ele julgava interessante e se identificou num trecho de Espere a Primavera Bandini.

“Arturo Bandini estava bastante seguro de que não iria para o inferno quando morresse. A maneira de ir para o inferno era cometer um pecado mortal. Ele havia cometido muitos, acreditava, mas o confessionário o salvara. A confissão sempre chegava a tempo… isto é, antes de morrer. E batia na madeira sempre que pensava naquilo – sempre chegaria a tempo… antes de morrer. Por isso Arturo estava bastante seguro de que não iria para o inferno quando morresse. Por duas razões.. O confessionário e o fato de que era um corredor veloz.”


    Ele comprou o romance de John Fante no cartão de crédito, voltou para casa e ficou sem saco de ler mais, dormiu, acordou no escuro, ainda eram uma e três da manhã, todos dormiam, ele andou pela casa, comeu um pedaço de pizza fria, bebeu um resto de coca-cola sem gás, fumou um cigarro, terminou os dois goles da coca que havia guardado para depois do cigarro, passou algum tempo olhando a chuva rala na janela, as poças que se formavam no chão, pensou na vida, na morte, em Deus, nas virgens (Maria e Camila), nas mães (Maria e a sem nome do bar de duas noites atrás), em Arturo, nos peixes... 
Em quase tudo a sua volta.

Então calçou um tênis e foi para a rua correr.